26.12.05

Testemunha conta como médico morreu

Matéria publicada no Diário de Pernambuco, 26/12/2005

Uma testemunha do assassinato do médico e psicanalista Antônio Carlos Escobar contou, ontem, ao Diario detalhes do crime que presenciou no cruzamento da Avenida Domingos Ferreira com a Rua Tomé Gibson, no sábado, 17 de dezembro. Por coincidência, no início da noite da véspera de Natal, no último sábado, a testemunha voltou a passar no local do crime, durante a realização do ato público organizado pelos amigos e parentes de Escobar para protestar contra a violência em Boa Viagem. A testemunha, que no momento do crime estava acompanhada por três mulheres, incluindo a filha de 10 anos, disse que, na hora do assalto, havia mais gente nas proximidades, num boteco. Mas que não olhou para as laterais com medo de também levar um tiro.

Dezenas de pessoas além de pedir pela defesa da vida, criticavam as ações de segurança do governo. "Pelo fim da insanidade da Secretaria de Defesa Social SDS", diziam alguns dos cartazes. Também estavam presentes, amigos da estudante Priscilla Vieira Sanches, 22 anos, que foi baleadana cabeça durante um assalto em Boa Viagem e permanece internada.

Os motoristas que passaram pelo local, concordaram com o ato e muitos chegaram a aplaudir a iniciativa apesar de o trânsito ter ficado parado por cerca de cinco minutos. A poucos metros do local onde foi feito o movimento, em frente ao Clinical Center, a equipe de reportagem observou a presença de uma viatura da Polícia Militar (PM).

Parentes e amigos do psicanalista e os representantes das entidades da sociedade civil organizada de Pernambuco aproveitaram o fechamento dos semáforos para distribuir entre os ocupantes de veículos e passageiros de ônibus um panfleto com mensagens. Foi uma das formas de homenagear o médico morto por tentar salvar pessoas que estavam sendo vítimas de violência.

Reunião - Em dos canteiros da avenida, algumas rosas foram deixadas também em memória de Escobar. O irmão do psicanalista, o médico José Carlos Escobar reiterou a idéia da criação do Instituto Antônio Carlos Escobar e fez críticas à atuação do governo do estado. "Vamos nos reunir na próxima terça-feira (amanhã) para discutir a criação do instituto que vai monitorar a violência uma vez que a situação esta fora de controle", destacou.

A nora do psicanalista, a promotora de vendas Rafaela Sampaio, 27, afirmou que um dos filhos dela, de oito anos, quando soube o motivo da morte do avô disse que não queria mais morar no Brasil. "Há um mês, meu marido foi baleado e agora meu sogro morreu com um tiro. O meu filho falou que queria ir embora do Brasil para não perder todos os parentes dessa forma", revelou.

Violência // Ato público, na véspera de Natal, organizado por amigos e parentes de psicanalista assasinado pediu mais segurança

O presidente do Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe), Ricardo Paiva, participou do ato e afirmou que o objetivo do mesmo foi atingido. "Nós queremos mostrar que não existe policiamento suficiente nas ruas, na noite de ontem (sexta-feira) nós andamos das 23h às 0h zero e não encontramos uma viatura policial em Boa Viagem. Nós temos que dar um basta na violência", pontuou Paiva.

A sobrinha de Escobar, Cecília Lima foi uma das que entregou panfletos aos motoristas e segurou os cartazes com as palavras pedindo paz e segurança para todas as pessoas. "O nosso objetivo é mostrar à sociedade que não podemos nos calar, a gente quer paz e segurança", finalizou. Na semana passada, durante uma reunião no Palácio do Governo, Cecília se irritou com as declarações do secretário João Braga quanto à diminuição dos índices de criminalidade no estado e abandonou chorando a reunião com o secretário. Hoje, às 19h30, na Matriz do Espinheiro, será celebrada a missa de 7º dia em memória do psicanalista assassinado. Confira a seguir trechos da entrevista da testemunha, que não quis ser identificada.

Entrevista [ Pedro - nome fictício ]

"Foi muito pânico". Habituado a dirigir quase diariamente pela Avenida Domingos Ferreira, Pedro, nome fictício, viu a poucos metros de distância a ação criminosa que resultou na morte do psicanalista Antônio Carlos Escobar. Ele estava no carro ao lado da mulher; a filha de 10 anos, que entrou em pânico ao ouvir o disparo e ver um dos rapazes armados, e uma amiga de sua mulher. "Esperei a qualquer momento ele dar um tiro em mim também", confessou. Por causa do crime, Pedro pensa em mudar a rota de suas viagens.

DP- Quando aconteceu o crime qual a distância do seu carro do veículo de Escobar?
Pedro - Parou o carro das mulheres, as vítimas do roubo, eu parei atrás delas e o médico do meu lado.
DP-Vocês viram tudo?
Sim. Mas não deu para eu fazer nada porque ou eu prestava assistência a minha filha ou a ele. Minha filha entrou em pânico.
DP-Quando você saiu do local ele havia sido socorrido?
Não. Quando ele foi baleado eu colei meu carro com o dele e pedi para ele parar. Ele estava agonizando no volante e a mulher dele muito agoniada dentro do carro. Quando ele brecou o carro de vez eu passei dele mais ou menos um metro. Engatei uma ré e foi justamente quando minha filha disse "painho, vamos embora, vamos embora".
DP-Como vocês souberam que ele havia morrido?
Na segunda-feira. Eu comprei o Diario e vi que ele tinha falecido.
DP-Você achava que ele ia morrer?
Eu tinha quase certeza. Quando colei o meu carro com o dele, ele estava agarrado no volante. Eu vi que ele estava se apagando.
DP-Você viu os assaltantes?
Sim. Vi dois sem camisa, com short e um deles com a arma. Ele estava bem próximo a mim, usava um short amarelo, cabelo encaracolado, moreno, magrinho e, parece até mentira, mas o cálculo de idade que eu fiz para ele era justamente aquilo. Entre 16 e 17 anos.
DP-Você temeu pela sua vida?
Temi porque o pânico foi muito grande. Eles poderiam achar que eu estava armado.
DP-Eles fugiram rápido?
Não. Ele atirou, correu e logo em seguida os dois pararam. Eles entraram num beco lá na esquina e ficaram olhando a situação.
DP-Se a polícia chamar você vai depor?
Não tenho interesse. O camarada não vai mais voltar. Acho que as autoridades deviam ver esses locais e colocar polícia na rua.

20.12.05

" Precisa-se de Matéria Prima para construir um País"

João Ubaldo Ribeiro, escritor

A crença geral anterior era que Collor não servia, bem como Itamar e Fernando Henrique. Agora dizemos que Lula não serve. E o que vier depois de Lula também não servirá para nada. Por isso estou começando a suspeitar que o problema não está no ladrão corrupto que foi Collor, ou na farsa que é o Lula. O problema está em nós. Nós como POVO. Nós como matéria prima de um país. Porque pertenço a um país onde a ESPERTEZA" é a moeda que sempre é valorizada, tanto ou mais do que o dólar. Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família, baseada em valores e respeito aos demais. Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderão ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixas nas calçadas onde se paga por um só jornal E SE TIRA UM SÓ JORNAL, DEIXANDO OS DEMAIS ONDE ESTÃO.

Pertenço ao país onde as "EMPRESAS PRIVADAS" são papelarias particulares de seus empregados desonestos, que levam para casa, como se fosse correto, folhas de papel, lápis, canetas, clipes e tudo o que possa ser útil para o trabalho dos filhos ...e para eles mesmos. Pertenço a um país onde a gente se sente o máximo porque conseguiu "puxar" a tevê a cabo do vizinho, onde a gente frauda a declaração de imposto de renda para não pagar ou pagar menos impostos. Pertenço a um país onde a impontualidade é um hábito. Onde os diretores das empresas não valorizam o capital humano. Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e depois reclamam do governo por não limpar os esgotos. Onde pessoas fazem "gatos" para roubar luz e água e nos queixamos de como esses serviços estão caros. Onde não existe a cultura pela leitura (exemplo maior nosso atual Presidente, que recentemente falou que é "muito chato ter que ler") e não há consciência nem memória política, histórica nem econômica. Onde nossos congressistas trabalham dois dias por semana para aprovar projetos e leis que só servem para afundar ao que não tem, encher o saco ao que tem pouco e beneficiar só a alguns.

Pertenço a um país onde as carteiras de motorista e os certificados médicos podem ser "comprados", sem fazer nenhum exame. Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou um inválido, fica em pé no ônibus, enquanto a pessoa que está sentada finge que dorme para não dar o lugar. Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro e não para o pedestre. Um país onde fazemos um monte de coisa errada, mas nos esbaldamos em criticar nossos governantes. Quanto mais analiso os defeitos do Fernando Henrique e do Lula, melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem "molhei" a mão de um guarda de trânsito para não ser multado. Quanto mais digo o quanto o Dirceu é culpado, melhor sou eu como brasileiro, apesar de ainda hoje de manhã passei para trás um cliente através de uma fraude, o que me ajudou a pagar algumas dívidas. Não. Não. Não. Já basta.

Como "Matéria Prima" de um país, temos muitas coisas boas, mas nos falta muito para sermos os homens e mulheres que nosso país precisa. Esses defeitos, essa "ESPERTEZA BRASILEIRA" congênita, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até converter-se em casos de escândalo, essa falta de qualidade humana, mais do que Collor, Itamar, Fernando Henrique ou Lula, é que é real e honestamente ruim, porque todos eles são brasileiros como nós, ELEITOS POR NÓS. Nascidos aqui, não em outra parte... Me entristeço. Porque, ainda que Lula renunciasse hoje mesmo, o próximo presidente que o suceder terá que continuar trabalhando com a mesma matéria prima defeituosa que, como povo, somos nós mesmos. E não poderá fazer nada... Não tenho nenhuma garantia de que alguém o possa fazer melhor, mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá. Nem serviu Collor, nem serviu Itamar, não serviu Fernando Henrique, e nem serve Lula, nem servirá o que vier. Qual é a alternativa? Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a força e por meio do terror? Aqui faz falta outra coisa. E enquanto essa "outra coisa" não comece a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente estancados....igualmente sacaneados!!! É muito gostoso ser brasileiro. Mas quando essa brasilinidade autóctone começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação, aí a coisa muda... Não esperemos acender uma vela a todos os Santos, a ver se nos mandam um Messias.

Nós temos que mudar, um novo governador com os mesmos brasileiros não poderá fazer nada. Está muito claro...... Somos nós os que temos que mudar. Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda nos acontecendo: desculpamos a mediocridade mediante programas de televisão nefastos e francamente tolerantes com o fracasso. É a indústria da desculpa e da estupidez. Agora, depois desta mensagem, francamente decidi procurar o responsável, não para castigá-lo, senão para exigir-lhe (sim, exigir-lhe) que melhore seu comportamento e que não se faça de surdo, de desentendido. Sim, decidi procurar o responsável e ESTOU SEGURO QUE O ENCONTRAREI QUANDO ME OLHAR NO ESPELHO. AÍ ESTÁ. NÃO PRECISO PROCURÁ-LO EM OUTRO LADO. E você, o que pensa?.... MEDITE!!!!!"


(Artigo enviado ao Blog por Dânny Gris, jornalista, RS)

14.12.05

Obras-primas da Santa Natureza (II): Ainda simetrias (a Harmonia das Estrelas)

ggdsilva*

Para a ciência, a simetria só tem valor quando corresponde à realidade. Uma das mais antigas simetrias que se conhece foi atribuída ao mundo por Pitágoras, há cerca de 25 séculos, segundo a qual o Sol, a Lua, cada um dos planetas e o conjunto das estrelas estavam fixos em esferas translúcidas, todas girando de forma independente em torno da Terra. O conjunto de esferas formaria o Céu, onde tudo seria perfeito, com movimentos em trajetórias circulares ou em combinações de círculos; na Terra estariam as imperfeições e os fatos imprevisíveis, como tempestades, trovoadas, estiagens.

Essa concepção cosmológica, muito celebrada na antiguidade juntamente com a harmonia dos números e dos sons musicais, foi superada graças aos trabalhos de cientistas como o polonês Nicolau Copérnico, o alemão Johannes Kepler e o inglês Isaac Newton, ao longo dos séculos XVI e XVII. Pela causa, no entanto, houve quem morresse queimado na fogueira, como Giordano Bruno; ou quase, como Galileu Galilei...

Um fato que ajudou a desbancar a crença nas esferas foi, justamente, a observação de uma quebra na simetria suposta e desejada. O astrônomo dinamarquês Tycho Brahe, que fora professor de Kepler, não acreditava nessa distinção entre o Céu e a Terra por causa do comportamento irregular dos cometas, os quais, apesar de pertencerem ao Céu, obviamente não possuíam movimentos circulares e, portanto, não eram perfeitos. Se algo no Céu não era perfeito então toda suposta perfeição seria suspeita. Qualquer cometa passou a ser observado, então, com muita curiosidade, pois poderia ser a resposta para uma relevante questão.

Charles Messier (1730-1817), um astrônomo francês, era um “caçador de cometas”, principalmente pela beleza desses objetos, mas também, provavelmente, influenciado pelas questões levantadas por Tycho Brahe no século XVI.

Messier começou a catalogar tudo que “não era cometa”, para poder se preocupar apenas com esses objetos. Até o final de sua vida, Messier relacionou mais de uma centena de “coisas”, chamando-as de M1, M2, M3 etc. designações ainda hoje utilizadas em sua homenagem. M31, por exemplo, é Andrômeda, galáxia muito maior do que a nossa; na verdade, Andrômeda comanda gravitacionalmente a Via Láctea e algumas outras galáxias menores agrupadas neste recanto do Universo. M74 é outra fantástica galáxia espiral, como se vê na foto, semelhante à nossa Via Láctea. M74 possui aproximadamente cem bilhões de estrelas e roda como um incrível carrossel, com sua harmoniosa simetria, não só espacial, mas também no tempo, pois recentes estudos levam a crer que os braços espiralados das galáxias espirais são decorrentes de sincronização – considerada uma simetria na dimensão tempo – dos efeitos gravitacionais laterais, entre as estrelas, planetas, objetos diversos, poeira e gases que ali se movimentam.

Nos braços das galáxias espirais estão os berçários de novas estrelas, as quais se formam com gases, poeira e restos de estrelas de gerações anteriores, principalmente das supernovas que, ao explodir, espalham átomos pesados forjados em seus núcleos e que são necessários para geração e manutenção da vida. Somos todos formados do barro oriundo de estrelas explodidas...

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*ggdsilva é engenheiro de telecomunicações e administrador, com pós-graduação em ciências políticas. É leitor contumaz do BLOG DA SANTA e de livros de ciências naturais, particularmente cosmologia.

12.12.05

PCdoB loteia cargos de confiança

Câmara virou "coração de mãe", com extensa lista de nomes ocupando Cargos de Natureza Especial
O PCdoB, partido do presidente da Câmara dos Deputados, Aldo Rebelo (SP), loteou cargos de confiança da legenda na Casa entre pelo menos 11 dirigentes da sigla que moram em São Paulo. O gabinete da Liderança do PCdoB também emprega a mulher e o irmão de Aldo. A reportagem teve acesso à lista de ocupantes dos chamados Cargos de Natureza Especial (CNEs) no gabinete da Liderança. A Câmara paga salários que variam de R$ 2,4 mil a R$ 6,2 mil aos 11 dirigentes e aos parentes do presidente da Casa. Há também uma militante que reside em Fortaleza, no Ceará. A lista tem 21 nomes.

Criados em 1992, os CNEs deveriam suprir uma deficiência de pessoal na Câmara e exercer funções técnicas, enquanto não fossem feitos concursos públicos. Mas se tornaram um cabide de empregos para parentes e cabos eleitorais e passaram ainda a servir para fortalecer as estruturas dos partidos, como é o caso da Liderança do PCdoB. No jogo político do Congresso, viraram moeda de troca nas barganhas entre os parlamentares. Tanto que os dois últimos antecessores de Aldo na Presidência, Severino Cavalcanti (PP-PE) e João Paulo Cunha (PT-SP), foram alvo de críticas pelo abuso nas nomeações. Severino empregou parentes e amigos em Pernambuco, ao passo que o petista distribuiu cargos em Osasco, seu reduto eleitoral. Os CNEs tiveram papel decisivo na própria eleição de Aldo, há dois meses.

Nas negociações entregoverno e setores da oposição, dezenas desses cargos foram leiloados para garantir a eleição do atual presidente, conforme relataram à reportagem deputados envolvidos nas conversas. Hoje, estima-se que haja cerca de 2,2 mil CNEs nomeados - a maior parte deles morando nos estados dos deputados. A lista completa com esses nomes é um dos segredos mais bem guardados do Congresso. Todos os partidos detêm uma penca de cargos nos estados, assim como os principais líderes da Câmara. A reportagem pediu à Presidência da Câmara acesso a todos os nomes dos CNEs, mas a assessoria da Casa afirmou que "isso não seria possível". A lista obtida pela reportagem se limita às nomeações na Liderança do PCdoB.

Dos 21 nomes, apenas seis moram em Brasília. Rita de Cássia Polli, a mulher do presidente da Câmara, é jornalista e exerce o cargo de CNE 9, cujo salário corresponde a R$ 4,7 mil. O irmão de Aldo, Antônio Apolinário Rebelo Figueiredo, detém um CNE 7 e ganha R$ 6,2 mil. Os dois já trabalhavam na Liderança quando Aldo assumiu a presidência da Câmara. Mas foram nomeados quando ele já era deputado. Rita, em janeiro de 2002. Dos 21 "assessores", pelo menos 11 integram o Comitê Central do partido e moram na capital paulista. José Reinaldo Carvalho é vice-presidente da legenda e um dos responsáveis pelas relações internacionais da sigla. Ocupa um CNE 13 e recebe R$ 2,4 mil dos cofres públicos.

Também integrante do Comitê Central do PCdoB, José Carlos Ruy ganha um salário melhor. Como CNE 7, tem direito a proventos de R$ 6,2 mil. Walter Sorrentino, secretário de Organização da legenda e outro que faz parte do Comitê Central, recebe R$ 4,7 mil. Há outros próceres do partido na folha de pagamento da Câmara. Ronald Cavalcanti Freitas é secretário de Relações Institucionais e também integra o Comitê Central. Ocupa um CNE 11 e recebe R$ 3,2 mil. Adalberto Monteiro é secretário de Propaganda e também ganha R$ 3,2 mil da Câmara.

Outros cinco secretários nacionais do PCdoB estão na lista. Ronaldo Carmona é o responsável pelas relações internacionais da legenda. Está registrado como CNE 13 e recebe R$ 2,4 mil. Pedro de Oliveira, que ganha R$ 3,2 mil, é secretário de Comunicação e também integra o Comitê Central do partido. Ricardo Abreu de Melo, conhecido como "Alemão", é secretário de Juventude da sigla e recebe R$ 2,4 mil da Câmara. Adalberto Monteiro é secretário de Propaganda e tem direito a um salário menos modesto: R$ 3,2 mil. Mesmo valor dos proventos pagos pela Câmara a Vital Nolasco, secretário de Finanças do partido. A lista inclui ainda Márcia Maria Xavier, militante que, segundo os registros da Câmara, mora em Fortaleza. A deputada Socorro Gomes (PA), que assumiu o cargo há dois meses, também constava como CNE e morava em Belém.

Matéria publicada,
Tribuna da Imprensa.

Para não esquecer as peripécias de João Paulo Cunha

Comentário da cientista política Lucia Hippolito na CBN.

" Dezembro é tempo de relembrar o que foi feito e o que foi dito. É tempo de retrospectivas nas TVs, rádios, revistas e jornais. E foi justamente revendo o que falei ao longo do ano que me deparei com um comentário a respeito de um personagem que periga escapar de toda a lambança do mensalão, embora esteja envolvido em mil e umas. Trata-se do deputado João Paulo Cunha, ex-presidente da Câmara, que está sendo processado no Conselho de Ética porque mandou sua mulher sacar 50 mil reais das contas de Marcos Valério.

Em 11 de julho, comentei na CBN que João Paulo Cunha candidatou-se a presidente da Câmara em 2003 e contratou uma agência de publicidade para fazer sua campanha. Por que cargas d’água alguém contrata uma agência para fazer uma campanha em que não há competidores? Isso mesmo. João Paulo concorreu em chapa única. E quem foi o publicitário escolhido? Ele mesmo, Marcos Valério. Sem adversários, João Paulo Cunha foi eleito presidente da Câmara dos Deputados. E qual era a agência que cuidava da imagem da Câmara? Ela mesma, a agência de Marcos Valério, que tinha feito aquela campanha eleitoral inteiramente desnecessária, isto porque João Paulo era candidato único à presidência da Câmara.

Em 2004, segundo ano de mandato de João Paulo na presidência, a agência de Marcos Valério recebeu dez milhões e 500 mil reais para fazer propaganda da Câmara dos Deputados. Será que os 513 deputados tinham conhecimento disso? . E será que os 513 deputados sabiam que João Paulo encomendou ao amigão Marcos Valério pesquisas sobre suas chances na disputa pelo governo de São Paulo? Tudo pago pela Câmara, naturalmente.

Por que a Câmara precisa fazer propaganda de sua imagem, se tem a TV Câmara, a Agência Câmara de Notícias, site na Internet, espaço diário na Voz do Brasil e o presidente e pode requisitar cadeia de rádio e TV a qualquer momento?

Pois bem. Apanhado com a boca na botija no caso do valerioduto, primeiro João Paulo declarou que sua mulher tinha ido ao Banco Rural pagar a conta de uma TV a cabo. Depois, reclamou que tinham garantido a ele que o saque não ia aparecer, porque o Coaf só acusa movimentações acima de cem mil reais. E agora, circulam histórias na Câmara dando conta de que João Paulo pode escapar da cassação porque, como presidente da Casa, fez muitos amigos entre os deputados. Será que essas pessoas pensam que a opinião pública é boba e desmemoriada? Estão brincando com fogo."

6.12.05

Podridão Agrária

* Xico Graziano

Abrem-se os trabalhos na CPMI da Terra. São ouvidos gestores das entidades que funcionam como linha auxiliar do MST. É grande a expectativa. A quebra do sigilo bancário expôs um sumidouro de recursos públicos.

Deputado Abelardo Lupion interpela o sr. Emerson Rodrigues: — O senhor recebeu em seu nome vários cheques somando R$ 318.428,00. Com qual finalidade eram sacados valores tão altos?

O depoente: — Reservo-me o direito constitucional de permanecer em silêncio.

Deputado Abelardo Lupion pergunta ao sr. José Trevisol: — Eu tenho aqui um cheque no valor de R$ 501.953,00, assinado pelo senhor e sacado em dinheiro. O senhor confirma?

O depoente: — Reservo-me o direito constitucional de permanecer em silêncio.

E assim, de forma surpreendente, permaneceram de boca fechada os responsáveis pela utilização de R$ 41,7 milhões, repassados através de convênios, pelo governo federal, às entidades comandadas pelo MST. Nenhuma explicação, nenhuma palavra. Foram consecutivas 127 não-respostas.

O miolo do escândalo: o saque na “boca do caixa”, efetuado por laranjas vermelhas, soma R$ 3.514.349,00. Por que valores tão expressivos foram utilizados através de cheques ao portador? Ninguém respondeu.

Aqui reside a desavença política ocorrida, nesses dias, ao se finalizar os trabalhos da CPMI da Terra. As apurações da comissão mostraram uma podridão. Chamados a esclarecer os fatos, os dirigentes sem-terra preferiram a escuridão do silêncio à transparência do verbo. Lamentável.

Engana-se quem, ao analisar a votação daquele relatório final, rotular as divergências havidas entre, de um lado, ruralistas conservadores e, de outro, progressistas trabalhadores sem-terra. O cerne da encrenca recente não residiu na ideologia, e sim na verdade.

O debate raivoso e as cenas explícitas da “doença do Aparecido” procuram esconder um submundo deplorável da atual questão agrária. O chamado movimento social vive à custa do cofre público. Convênios se destinam, no papel, a apoiar ações altruístas e, na prática, alimentam o processo das invasões de terra.

Relatório do Tribunal de Contas da União, após análise de 103 desses convênios, indicou gritantes irregularidades na prestação de contas. Estima que R$ 18 milhões tenham sido desviados.

Qualquer semelhança não é mera coincidência. A traquinagem do MST funciona com a tradicional tecnologia dos ladrões do dinheiro público. O esquema é semelhante àquele do mensalão. Não se pode afirmar que seus líderes enriqueceram. O delito objetiva o poder, ou a revolução. Crime da mesma forma.

Por conta disso, a maioria dos parlamentares rejeitou o insosso e tendencioso relatório de João Alfredo, militante dos sem-terra. Ele fazia vistas grossas à tramóia. Em seu lugar acabou aprovado o substitutivo Lupion, que indicia seus responsáveis.

A CPT diz que o novo texto consagra a violência no campo. O MST afirma que a comissão se curvou aos objetivos criminosos da UDR. Fazem o conhecido jogo da dissimulação ideológica.

O raciocínio polarizado serve para justificar o esconde-esconde da malandragem agrária. Normal. Injustificável é ver jornalistas comprarem barato esse discurso falso. É incrível perceber como a mídia gosta da palavra fácil e do gesto brusco, assumindo a defesa dos “coitadinhos” sem-terra contra os “malfeitores” fazendeiros. Generalizam e informam mal a opinião pública.

Lênin atacou o esquerdismo taxando-o como doença infantil do comunismo. Articular alianças políticas para enfrentar a grilagem de terras e promover a regularização fundiária do país é fundamental. A qualidade da reforma agrária brasileira daria um bom debate.

Mas essa esquerda que fugiu na reta final da CPMI acusando todos os parlamentares de assassinos não quer discutir nada a sério. Sabe gritar, rasgar, não construir. É autoritária e covarde.

Não há acordo possível com relação à malversação de dinheiro público. O silêncio dos depoentes do MST durante as sessões da CPMI selou sua culpa. Não mentiram, foi seu único mérito. Mas quem cala consente.

XICO GRAZIANO, é agrônomo e deputado federal (PSDB-SP).
http://oglobo.globo.com/jornal/opiniao/189532286.asp

2.12.05

CPI do Mensalão - Resposta Amir Lando

----- Original Message -----
From: Sen. Amir Lando
To: Plínio Palhano
Sent: Thursday, November 24, 2005 2:10 PM
Subject: RES: indignação

Prezado Plínio Palhano:


Os anais do Senado Federal são o testemunho mais que fiel da minha defesa, intransigente, da instituição ?Comissão Parlamentar de Inquérito?. Fui o Relator de duas Comissões, ambas mistas (Senado Federal e Câmara dos Deputados): a chamada ?Collor/PC? e na investigação do processo de privatizações. Foram duas experiências distintas: na primeira, havia vontade política de investigar: em, apenas, três meses, foram colhidos 25 depoimentos, em 35 reuniões de trabalho. Foram autuados 130 documentos considerados relevantes para as investigações, sem contar os relativos aos sigilos bancários, telefônicos e fiscais, que se somaram aos milhares. Era 1992, muitos destes documentos foram trabalhados ainda na base da calculadora manual. Mas, tamanha carga de trabalho não impediu que se gerasse um documento que, até hoje, permanece imune a críticas do ponto de vista da investigação. A união da vontade política e do trabalho investigativo propriamente dito foi a responsável pelos resultados que marcaram a história do Brasil no final do século que passou.

Já na CPMI das Privatizações (1993), os resultados não foram os esperados. Por mais que tenha me esforçado para investigar a dilapidação do patrimônio público que se sucedia a olhos vistos, não havia vontade política para atingir os objetivos da CPMI. Verdadeiras ?tropas de choque? se formaram para impedir, por exemplo, quebras de sigilos. O plenário da Comissão era ocupado, quase que exclusivamente, para obstaculizar os trabalhos. Além disso, a imprensa cobriu a CPMI com o mais denso manto de silêncio. Na última reunião, quando apresentei o meu relatório, como que por encanto, foi encaminhado um substitutivo, totalmente contrário à realidade dos fatos apurados, a duras penas, pela CPMI. Não é preciso deduzir que o relatório, enfim aprovado, foi o substitutivo. Para isso, quer dizer, para atentar contra a verdade, não faltou quorum, nem vontade política.

Em nenhuma das duas situações, entretanto, eu deixei de cunhar propostas que, na minha opinião, poderiam impedir a proliferação de casos de malversação de recursos públicos. O relatório da CPMI ?Collor/PC?, por exemplo, traz um capítulo especial sobre ?os fatores que possibilitam esquemas do tipo PC?, que propõe medidas relativas ao financiamento de campanhas eleitorais, ao ciclo orçamentário, à fiscalização e ao controle do gasto público, às alterações necessárias no sistema financeiro nacional, entre outras. Estou certo de que, se tais medidas fossem, efetivamente, colocadas em prática, não teríamos necessidade das outras CPMIs que se seguiram, como ao do Orçamento, a dos Bancos e, certamente, a dos Correios e a da Compra de Votos.

Em ambos os casos, sempre me pautei pela verdade e pela justiça e me guiei pela luz dos fatos.
Como Presidente da CPMI da Compra de Votos, posso afirmar, hoje, que não encontrei, desde o início dos trabalhos, o necessário interesse de investigar. Basta dizer que as reuniões administrativas, que é quando, por exemplo, são quebrados os sigilos bancários, fiscais e telefônicos, quase sempre se deparavam com a barreira do número insuficiente de parlamentares para a devida deliberação. Arquitetou-se uma espécie de ?fidelidade partidária?, na defesa de parlamentares das respectivas bancadas. Nos depoimentos, o tempo reservado aos parlamentares era, na maioria das vezes, ocupado para desfilar pequenas biografias, sem perguntas embasadas no conhecimento do processo investigativo.

A CPMI não acabou pela falta de assinaturas para prorrogá-la. A grande verdade é que ela não morreu ?de velhice antes dos trinta (dias)?. Nem mesmo de ?emboscada antes dos vinte?. Ela morreu, ?severinamente?, ?um pouco por dia?. Só que, no caso, muito diferente da situação tão bem declamada pelo poeta, ela morreu por falta de vontade de viver. Falta de vontade política de investigar.

Confesso a minha decepção. Os trabalhos da CPMI da Compra de Votos, apesar de tamanhos obstáculos, estavam a um passo de resultados concretos sobre os objetivos que motivaram a sua instalação. Como defensor intransigente dos regimentos, não podia tomar decisão solitária, sem a aprovação do plenário. Por maior que tenha sido o esforço, não foi possível, nem mesmo, reunir número suficiente para deliberar sobre a prorrogação dos trabalhos. Quanto mais assinaturas para efetivá-la.

No último parágrafo do meu relatório da CPMI das Privatizações, eu afirmei que ?neste ponto, não concluo o relatório, suspendo-o para que alguém, em momento mais propício e promissor, retome esse tenebroso capítulo da Administração Pública Brasileira...?. Ao transportar para o presente tal afirmação, espero que não passe, outra vez, mais de uma década para que se realize o meu intento.

Continuo a contar com suas sugestões, críticas e avaliações sobre a minha atuação parlamentar.
Atenciosamente,
Senador AMIR LANDO