Dezenas de pessoas além de pedir pela defesa da vida, criticavam as ações de segurança do governo. "Pelo fim da insanidade da Secretaria de Defesa Social SDS", diziam alguns dos cartazes. Também estavam presentes, amigos da estudante Priscilla Vieira Sanches, 22 anos, que foi baleadana cabeça durante um assalto em Boa Viagem e permanece internada.
Os motoristas que passaram pelo local, concordaram com o ato e muitos chegaram a aplaudir a iniciativa apesar de o trânsito ter ficado parado por cerca de cinco minutos. A poucos metros do local onde foi feito o movimento, em frente ao Clinical Center, a equipe de reportagem observou a presença de uma viatura da Polícia Militar (PM).
Parentes e amigos do psicanalista e os representantes das entidades da sociedade civil organizada de Pernambuco aproveitaram o fechamento dos semáforos para distribuir entre os ocupantes de veículos e passageiros de ônibus um panfleto com mensagens. Foi uma das formas de homenagear o médico morto por tentar salvar pessoas que estavam sendo vítimas de violência.
Reunião - Em dos canteiros da avenida, algumas rosas foram deixadas também em memória de Escobar. O irmão do psicanalista, o médico José Carlos Escobar reiterou a idéia da criação do Instituto Antônio Carlos Escobar e fez críticas à atuação do governo do estado. "Vamos nos reunir na próxima terça-feira (amanhã) para discutir a criação do instituto que vai monitorar a violência uma vez que a situação esta fora de controle", destacou.
A nora do psicanalista, a promotora de vendas Rafaela Sampaio, 27, afirmou que um dos filhos dela, de oito anos, quando soube o motivo da morte do avô disse que não queria mais morar no Brasil. "Há um mês, meu marido foi baleado e agora meu sogro morreu com um tiro. O meu filho falou que queria ir embora do Brasil para não perder todos os parentes dessa forma", revelou.
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O presidente do Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe), Ricardo Paiva, participou do ato e afirmou que o objetivo do mesmo foi atingido. "Nós queremos mostrar que não existe policiamento suficiente nas ruas, na noite de ontem (sexta-feira) nós andamos das 23h às 0h zero e não encontramos uma viatura policial em Boa Viagem. Nós temos que dar um basta na violência", pontuou Paiva.
A sobrinha de Escobar, Cecília Lima foi uma das que entregou panfletos aos motoristas e segurou os cartazes com as palavras pedindo paz e segurança para todas as pessoas. "O nosso objetivo é mostrar à sociedade que não podemos nos calar, a gente quer paz e segurança", finalizou. Na semana passada, durante uma reunião no Palácio do Governo, Cecília se irritou com as declarações do secretário João Braga quanto à diminuição dos índices de criminalidade no estado e abandonou chorando a reunião com o secretário. Hoje, às 19h30, na Matriz do Espinheiro, será celebrada a missa de 7º dia em memória do psicanalista assassinado. Confira a seguir trechos da entrevista da testemunha, que não quis ser identificada.
Entrevista [ Pedro - nome fictício ]
"Foi muito pânico". Habituado a dirigir quase diariamente pela Avenida Domingos Ferreira, Pedro, nome fictício, viu a poucos metros de distância a ação criminosa que resultou na morte do psicanalista Antônio Carlos Escobar. Ele estava no carro ao lado da mulher; a filha de 10 anos, que entrou em pânico ao ouvir o disparo e ver um dos rapazes armados, e uma amiga de sua mulher. "Esperei a qualquer momento ele dar um tiro em mim também", confessou. Por causa do crime, Pedro pensa em mudar a rota de suas viagens.
DP- Quando aconteceu o crime qual a distância do seu carro do veículo de Escobar?
Pedro - Parou o carro das mulheres, as vítimas do roubo, eu parei atrás delas e o médico do meu lado.
DP-Vocês viram tudo?
Sim. Mas não deu para eu fazer nada porque ou eu prestava assistência a minha filha ou a ele. Minha filha entrou em pânico.
DP-Quando você saiu do local ele havia sido socorrido?
Não. Quando ele foi baleado eu colei meu carro com o dele e pedi para ele parar. Ele estava agonizando no volante e a mulher dele muito agoniada dentro do carro. Quando ele brecou o carro de vez eu passei dele mais ou menos um metro. Engatei uma ré e foi justamente quando minha filha disse "painho, vamos embora, vamos embora".
DP-Como vocês souberam que ele havia morrido?
Na segunda-feira. Eu comprei o Diario e vi que ele tinha falecido.
DP-Você achava que ele ia morrer?
Eu tinha quase certeza. Quando colei o meu carro com o dele, ele estava agarrado no volante. Eu vi que ele estava se apagando.
DP-Você viu os assaltantes?
Sim. Vi dois sem camisa, com short e um deles com a arma. Ele estava bem próximo a mim, usava um short amarelo, cabelo encaracolado, moreno, magrinho e, parece até mentira, mas o cálculo de idade que eu fiz para ele era justamente aquilo. Entre 16 e 17 anos.
DP-Você temeu pela sua vida?
Temi porque o pânico foi muito grande. Eles poderiam achar que eu estava armado.
DP-Eles fugiram rápido?
Não. Ele atirou, correu e logo em seguida os dois pararam. Eles entraram num beco lá na esquina e ficaram olhando a situação.
DP-Se a polícia chamar você vai depor?
Não tenho interesse. O camarada não vai mais voltar. Acho que as autoridades deviam ver esses locais e colocar polícia na rua.