Por Reinaldo Azevedo
Em cinco anos de governo Lula, a derrubada da CPMF foi a primeira vitória importante da oposição. Vitória? Que vitória? A minha resposta lhes parecerá, talvez, um tanto abstrata, mas creio nela: a da política sobre a onipotência; a do Poder Legislativo sobre a vontade imperial do Executivo. Não é pouca coisa. E é preciso, de saída, constatar: será mais difícil às oposições a administração do dia seguinte do que propriamente derrotar, como derrotaram, o presidente Lula. Nesta sexta, começa a reação, a disputa pela opinião pública. Ela havia se manifestado majoritariamente contra a CPMF em pesquisas de opinião. Lula pode dar continuidade à negociação para reapresentar a proposta no ano que vem. Pode partir, como vinha fazendo, para a demonização das oposições, tentando inverter o jogo.
Antes que continue, nunca é demais lembrar: publico abaixo o voto dos senadores. Vejam lá: seis nomes da base votaram contra o governo. “Ah — dirão —, mas o peemedebista Jarbas Vasconcelos (PE) nunca foi governista”. É verdade. “Mão Santa, o Cícero do Piauí, sempre fez oposição a Lula”. Também é fato. Convenham: esse é um problema que tem de ser resolvido pelo Planalto, não é? Cabe aos ministros da área política cuidar do assunto, não a Arthur Virgílio (PSDB-AM) ou a José Agripino (DEM-RN). De fato, a oposição votou unanimemente contra a CPMF, mas não foi ela que tirou os quatro votos que faltaram ao governo. A proposta costurada pelo governador José Serra na interlocução com Antonio Palocci era boa para a Saúde? Era, sim. Esqueçam o número mágico: “100%”. Dinheiro não tem carimbo. Ela previa um grande aumento nas verbas para o setor, o que não é, com efeito, ruim. Aécio Neves também queria a aprovação e até chegou a dá-la como provável.
Acontece que triunfou no PSDB a leitura política do processo, e não a dos governadores, que procuraram raciocinar de olho no próprio caixa, o que é legítimo, mas não uma categoria absoluta. Nos casos de Serra e Aécio, há um pouco mais do que isso: querem a Presidência da República — de preferência, com a CPMF. Tudo porque gostam de imposto? Não necessariamente. Mas porque é preferível pegar um país que tenha R$ 40 bilhões a mais de arrecadação a pegar um com R$ 40 bilhões a menos, não é? E temem, como os demais, o corte de verbas federais — que, não duvidem, virá. Criou-se, assim, uma cisão no tucanato entre quem optou por aplicar a derrota política no governo e quem se contentava apenas em empurrá-lo para uma posição defensiva, obrigando-o a negociar, o que Lula, convenha-se, acabou fazendo.
Na democracia, derrotas são possíveis e têm efeito educativo. Lula fez por merecer o revés — insisto: o primeiro realmente importante em cinco anos. Nunca é demais lembrar que as reformas no começo do primeiro mandato só não foram além por falta de apoio, de novo, de sua base. O então PFL e o PSDB seguiram à risca a trilha do que chamaram, então, coerência. À época, até cunhei uma frase: essa tal coerência não pode ser uma cruz a pesar apenas nos ombros dos adversários de Lula — enquanto ele pode fazer gracejos com a sua “metaRmofe ambulanto”. Chegava a ser cômico ouvir o discurso inflamado de alguns governistas afirmando que DEM e tucanos votaram a favor da contribuição no governo FHC. Bem, para que tal argumento tenha alguma validade moral, é preciso lembrar que o PT, hoje a favor, era então contrário. Desta vez, a oposição decidiu que não tinha por que carregar, sozinha, a cruz. E fez muito bem.
Lula pode, depois de perder uns R$ 11 bilhões, reapresentar a proposta no ano que vem. Reitero: se arrumar a sua base, tem votos para aprovar a CPMF sem precisar das oposições. Afinal, não é certo que elas respondem por tudo o que de mal se fez nos últimos 500 anos? Não foram elas que lhe legaram uma herança maldita em qualquer área que se queira da administração? Não são as responsáveis por tudo o que não funciona? Não são elitistas, reacionárias, preconceituosas e sonegadoras? Não foi Fernando Haddad que vi ainda ontem na TV a afirmar que, até havia pouco tempo, ninguém dava bola pra educação? Se Lula pretende privatizar, como vem fazendo, todas as virtudes do país e jogar nos ombros alheios todas as dificuldades, não pode esperar contar com a oposição.
Cuidados
Mas é preciso cuidado. O DEM está de parabéns. Foi quem primeiro empunhou a bandeira e conseguiu fazer com que a questão fosse além do Congresso. A população se interessou pelo assunto. Acabou atraindo também o PSDB — e isso, notem bem, num momento em que o governo, olimpicamente, fazia pouco caso de quem falava em mexer na CPMF. Entre os democratas, será fácil defender o resultado da votação desta madrugada. A questão é saber quem vai defender o resultado no PSDB. Não será Serra. Não será Aécio. O mesmo vale para os demais governadores.
O que estou dizendo é que será preciso enfrentar o governo e, em particular, Lula. Quando ele precisava dos votos da oposição, não se fez de rogado: acusou os adversários de sabotadores e invejosos. O que dirá agora, já derrotado? Se o governo federal apertar para valer os Estados, governadores tucanos botarão a boca no trombone? A derrota da CPMF marca um momento em que se faz o que não se vinha fazendo até então: política. A base de operação do DEM, já sabemos, é o Congresso. E a dos tucanos? Quem protegerá o partido da campanha de desqualificação, que tende a começar já nesta quinta-feira? Que tomem cuidado. Ou acabam, mais uma vez, com uma vitória, fabrincando uma derrota.
Sem a CPMF 4– De onde cortar?
Mesmo com a perda de toda a arrecadação esperada com a CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira), o governo Luiz Inácio Lula da Silva tem condições de manter em 2008 o mesmo volume de gastos deste ano, com correção monetária, e a mesma meta de ajuste fiscal medida como proporção do PIB (Produto Interno Bruto). Para isso, porém, as promessas de mais investimentos quase certamente terão de ser abandonadas. O projeto de lei orçamentária, em tramitação no Congresso, dá margem a um aumento de gastos de 12,3% no próximo ano, bem acima da previsão mais consensual de inflação no mercado, de 4,1%. Sem a contribuição provisória, se quiser manter o mesmo superávit primário (a parcela da arrecadação reservada para o abatimento da dívida pública), o governo federal vai ter de limitar o crescimento das despesas a 4,3%. Em outras palavras, não será preciso promover uma redução real dos recursos totais à disposição do Executivo, mas apenas cancelar planos de expansão de uma série de atividades e programas. O ajuste, obviamente, será mais brando se o Palácio do Planalto conseguir reorganizar sua base de apoio e aprovar a CPMF ao longo do ano: na hipótese de perda de apenas metade da receita, a margem para o aumento de gastos sobe para 8,3%.
Sem a CPMF 3 - Votação racha ninho tucano
O debate sobre a prorrogação da CPMF produziu tremores em ninho tucano, abalando até mesmo a relação entre o governador de São Paulo, José Serra, e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Segundo tucanos, FHC e Serra tiveram ontem ríspida discussão. No partido, os dois estão em campos opostos. FHC defende que o PSDB desgaste o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Serra, por sua vez, alega que os governos estaduais sofrerão perda caso a CPMF não seja prorrogada.Ontem, irritado com a atuação de FHC contra a CPMF, Serra acusou o amigo de jogar no "quanto pior, melhor". (...) Num dia marcado por tensas reuniões da bancada, o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio Neto (AM), chegou a telefonar para o governador de São Paulo, ameaçando renunciar à liderança caso os tucanos viessem a apoiar a prorrogação. (...) O governador de Minas Gerais, Aécio Neves, também tem reclamado da atuação do líder. Na segunda, ele telefonou para o presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), pedindo que assumisse a articulação porque Arthur Virgílio estava inflexível. Ontem, o líder também disse a Aécio que deixaria a liderança em caso de recuo.
Sem a CPMF 2 – “Governo deu uma bandeira às oposições”
Por Moacir Assunção, no Estadão:
Os erros do próprio governo Lula o levaram à derrota na votação da CPMF. Esta é a interpretação do cientista político Marco Antonio Teixeira, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Para ele, o episódio despertou um grande interesse na opinião pública, por se tratar de uma questão relacionada a impostos, e acabou fornecendo uma bandeira à oposição, que até então estava praticamente sem discurso. 'Basta ver o resultado da pesquisa CNI/Ibope, que demonstrou que ao mesmo tempo que 51% da população apóia o presidente Lula, 69% são contra a atual política tributária', afirmou. 'Aí há um recado, segundo o qual a população diz que gosta do governo, mas não dos tributos para perceber o impacto do tema na sociedade.'
Quem foi o vencedor nesta história da votação da CPMF?
O governo perdeu para ele mesmo, já que a derrota foi dentro da própria base aliada no Senado. O PSDB, por sua vez, acabou saindo como o grande vencedor. A articulação contra a CPMF foi organizada, principalmente, pelo senador tucano Arthur Virgílio (AM), embora o DEM tenha demonstrado mais intransigência desde o começo.
E o que fez o governo perder?
A má interpretação do sentimento da opinião pública ajudou neste sentido. A questão dos impostos é muito sensível para a sociedade, porque envolve a concepção de que o governo tem que gastar menos e cobrar menos da população. Com suas atitudes, o governo forneceu uma bandeira à oposição - a crítica à CPMF . Os oposicionistas estavam praticamente sem discurso diante do sucesso do presidente e acabaram conseguindo esta. A oposição, naturalmente, sai fortalecida do episódio, mas não chega a ameaçar o governo.
Sem a CPMF 1 – Minoria mostrou força moral, diz Rodrigo Maia
Por Luciana Nunes Leal, no Estadão:
A sessão para votação da prorrogação da CPMF não tinha nem começado e os parlamentares do DEM cantavam vitória, por terem sido os primeiros a fechar questão contra a contribuição. De manhã, indagado sobre a possibilidade de os integrantes do partido ficarem sozinhos na oposição fechada ao imposto do cheque na sessão, o presidente nacional do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), respondeu: “Seria a glória.” Rodrigo Maia fez o comentário ao chegar à convenção nacional do partido, realizada ontem em um auditório do Senado. Em seu discurso na convenção, Rodrigo Maia atacou os métodos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para conseguir votos de última hora em favor do imposto do cheque. “Muito foi oferecido e recusamos tudo. Foram ofertas de verbas, de favores, todas as tentações que favorecem a corrupção”, afirmou o presidente do DEM. “Os parlamentares resistiram. A minoria mostrou a força moral diante do rolo compressor da maioria.”
No encontro, o deputado fez questão de contrapor a posição de seu partido à do PSDB, que até a última hora corria o risco de se dividir na votação da prorrogação do imposto. “Nenhum outro partido nos superou em coerência e em defesa da ética”, afirmou Rodrigo Maia. O presidente do DEM aproveitou para elogiar a atuação do líder tucano no Senado, Arthur Virgílio (AM), “pela posição firme contra a CPMF” durante todo o debate.
http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/2007/12/o-dia-seguinte.html